“ Quando as crianças brincam
E eu as ouço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.
E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.
Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.”

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa parecia brincar com a alma. Sua escrita transcende os limites da imaginação e sempre nos provoca sensações.
Foi a partir dessa relação entre o sentir, o provocar e no nosso caso, o aprender, é que as reflexões acerca do planejamento educativo da creche se fundamentaram.
O que é preciso ensinar?; O que é preciso saber?
São sempre os questionamentos iniciais quando se começa a estruturar um planejamento pedagógico.
Ousamos então acrescentar algo mais, tão importante quanto ensinar e saber é o sentir.
Para tanto elaboramos um currículo composto dos seguintes itens:

Brinquedoteca: espaço essencial para o desenvolvimento da função simbólica, especialmente o faz de contas.

O espaço todo foi organizado com brinquedos de casinha, profissões, fantoches, fantasias, espelhos, maquiagem e bonecos.

Espaço Terapêutico: local onde trabalharemos em contato com a natureza, plantando, colhendo, cuidando de flores e canteiros. Será também um local para massagem, exploração do corpo, modelagem, musicalização e contação de histórias.

Artes: foco principal do nosso trabalho. Teremos um pequeno ateliê onde serão apresentadas às crianças imagens e músicas de grandes artistas, pinturas, técnicas expressivas, desenho, colagem, modelagem e dança.
As educadoras terão o auxílio da arteterapia como base para nossas leituras e discussões frente ao trabalho das crianças.

Horta: Espaço pensado para estimulação sensorial, especialmente a olfativa e gustativa, mas também para que as crianças tenham contato com a terra e com os alimentos saudáveis.

Culinária: procuraremos utilizar os alimentos da horta e do pomar da entidade para as receitas que serão feitas com as crianças.
Sucos naturais, salada de frutas, salada verde, enfim, uma gama de receitas para saborear e incentivar a alimentação saudável.
Também faremos tintas com pigmentos naturais extraídos de frutas e vegetais para utilizar com os pequenos.

Brinquedos e jogos: Cada sala da creche terá seu material permanente e rotativo, buscando novas formas de explorar a linguagem oral, escrita, raciocínio lógico, criatividade e etc.

Álbum de fotos: as educadoras irão fotografar alguns momentos da rotina semanal das crianças e com essas fotografias construiremos individualmente um álbum de fotos.
Será um importante instrumento de trabalho voltado ao reconhecimento dos espaços, pessoas e momentos.

No final do ano cada criança levará o seu álbum para casa e, portanto, os pais terão uma importante recordação do início da vida escolar de seus filhos.

Contação de histórias: teremos uma sala de leitura, onde serão priorizadas as contações com recursos extras como o fantoche, dedoche, fantochão, teatro de sombras, histórias com apoio musical e teatro.
O espaço contará também com livros com diversos formatos e gêneros, pufs, almofadas, enfim, um espaço confortável e agradável para esse primeiro contato com a leitura,  escrita e com o mundo da imaginação e das histórias.

Mini-fazendinha: será um espaço de incentivo ao cuidado com os animais, como as galinhas e os coelhos, além de uma rica experiência de cuidado e carinho com os bichinhos de estimação.

Psicomotricidade e Reorganização Neurológica: à criança de tenra idade é fundamental estimular a psicomotricidade como base para as aquisições momentâneas como a autonomia na alimentação, na hora da brincadeira, no caminhar e futuramente na aprendizagem da leitura, da escrita e dos cálculos matemáticos, por exemplo.
O método utilizado por essa creche será o Programa de Estimulação e Reorganização Neurológica de Glen Doman que visa alcançar as funções cognitivas, motoras, memória e atenção.
O PEC – Programa de Estimulação Neurológica e Reorganização Neurológica é composto de atividades de estimulação sensorial que auxiliam a neuroplasticidade e a formação de sinapses com maior qualidade.

Registros: Cada criança terá sua pasta de trabalhos e  fotos que ficará na sala de cada grupo.
Haverá também um caderno do grupo todo que será enviado cada semana para a casa de uma criança.
O objetivo dessa proposta é aproximar as crianças do grupo através do compartilhamento de sua vida pessoal e familiar.
Poderão ser coladas fotografias, embalagens, desenhos, figurinhas, enfim, o que marcar o final de semana da criança e de seus familiares.

Portfólios para avaliação do desenvolvimento individual: será organizado pela professora da sala com o apoio da auxiliar.
O acompanhamento desse material será base das discussões em nossas reuniões pedagógicas.

A idéia é que cada criança tenha sua pasta catálogo para a verificação das educadoras e da coordenadora pedagógica de algum fato importante e referente ao desenvolvimento.

Questões afetivas, emocionais e cognitivas podem ser observadas através de um registro fotográfico da criança enquanto realiza sua atividade, uma brincadeira ou a observação de uma eventual dificuldade motora e de aprendizagem que poderá ser detectada principalmente através do desenho.


"Cada desenho reflete os sentimentos, a capacidade intelectual, o desenvolvimento físico, a acuidade perceptiva, o envolvimento criador, o gosto estético e até a evolução social da criança, como indivíduo. Não só cada uma dessas áreas está refletida no trabalho que uma criança produz, mas também as mudanças, à medida que a criança cresce e se desenvolve, são claramente visíveis em seus desenhos" (Lowenfeld)


 
Maine Fonseca
Coordenadora Pedagógica


Referências bibliográficas: Lowenfeld W.L,Desenvolvimento da Capacidade Criadora

(...) “ O adulto criativo altera o mundo que o cerca, o mundo físico e psíquico, em suas atividades produtivas ele sempre acrescenta algo em termos de informação e sobretudo em termos de formação.
“Nessa atuação consciente o intencional pode até transformar os referenciais da cultura em que se baseiam as ordenações que faz e dos quais se reportam os significados de sua ação “. (Moreira, 2008)

Ações pautadas em referenciais teóricos agregam valor ao cotidiano da creche.
Mas para que isso ocorra é preciso criar um espaço de estudos e reflexões.
Pensar sobre a prática, discutir o desenvolvimento de cada criança, realizar as atividades que propomos aos pequenos abre espaço para novas idéias, para a solução de dúvidas e inquietações que surgem no cotidiano do espaço educativo.

“ A criatividade parece encontrar seu poder quando os adultos estão menos vinculados a métodos prescritivos de ensino e se tornam, em vez disso, observadores e intérpretes de situações problemáticas”. (p. Gandini, 2006)

É preciso também estreitar os laços afetivos, se vincular, se envolver...
Portanto, os eixos norteadores de nossas reuniões pedagógicas serão: reflexão, planejamento, sensibilização, estudo e prática.
Os recursos metodológicos a serem utilizados terão apoio da arteterapia, da pedagogia, da psicopedagogia, da psicologia analítica e da neurociência.

As reuniões com as professoras acontecerão quinzenalmente, sendo intercaladas com as reuniões com as auxiliares das salas.
Com as professoras o foco do trabalho será o estudo e as discussões frente ao desenvolvimento infantil e os estudos dos portfólios individuais dos alunos que nos servirão de indicadores para avaliação da aprendizagem das crianças.
Após os estudos e a leitura compartilhada com o tema pertinente à problemática ou ao cotidiano da creche, faremos uma atividade prática possibilitando também o trabalho terapêutico.
Com as auxiliares também acontecerão momentos de leitura compartilhada e atividades práticas.

“ O universo da arte fundamentado na materialização das imagens mentais, formadas pelas idéias ou ideais, encontra no encontro com materiais plásticos, nas performances corporais, na música e etc, o continente para a concretização das necessidades individuais. Por possibilitar o estabelecimento da união entre a sensação de falta sentida pelo indivíduo com o encontro de seus recursos pessoais, vitaliza suas disposições ocultas, direcionando-as para sua superação pessoal”. (Urrutigaray, 2006)

O trabalho com crianças de tenra idade exige esforços contínuos e, portanto, o stress físico e mental das educadoras também está sendo considerado nas propostas de formação continuada.

Metas:

  • Refletir sobre as propostas de trabalho e atuação junto às crianças;
  • Pesquisar sobre o desenvolvimento infantil e sobre estratégias de atuação, bem como de atividades para serem executadas posteriormente;
  • Refletir sobre a imagem e postura do modelo de leitor;
  • Atentar para a importância dos cuidados e da estimulação correta desde a mais tenra idade;
  • Auxiliar o grupo frente às questões que envolvem aprendizagem, desenvolvimento e intervenções junto às crianças;
  • Oportunizar um espaço de troca, expressão e acolhimento.

 

Metodologia:

  • Leitura compartilhada
  • Pesquisas
  • Técnicas expressivas
  • Fotografia
  • Modelagem
  • Palestras com temas variados
  • Desenho e pintura

 

Maine Fonseca
Coordenadora Pedagógica

 

 

Introdução 

Pensar na atuação do Serviço Social na creche nos faz refletir sobre sua história que teve surgimento no início do século XX dentro do contexto capitalista, como um serviço destinado à mulher que se inseria no mercado de trabalho, mais especificamente, às mulheres de classes sociais economicamente mais carentes.
“Foi para atender aos filhos dessas operárias que o atendimento em creche
proliferou-se e adquiriu caráter assistencialista, onde a criança deveria ser cuidada e alimentada “substituindo os cuidados maternais” no período de trabalho da mãe” (COSTA, 2009).


Nos últimos vinte anos houveram significativas mudanças conquistadas por movimentos sociais organizados, reivindicadores de creches e pré-escolas, destacadas pela promulgação da Constituição Federal de 1988 (CF/88), na qual a criança é reconhecida em sua cidadania e, portanto, como sujeito de direitos.
 Como afirma Szymanski: Em todas as camadas sociais, a família não tem mais o monopólio da socialização da criança, em especial, graças à entrada da mulher no mercado de trabalho, o que responsabiliza a sociedade a buscar novos caminhos de atenção à família.

A Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente e posteriormente a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional fazem parte da legislação que colaborou para o importante avanço que asseguram hoje o direito de todas as crianças a creches e pré-escolas.

Costa argumenta que a compreensão das mudanças ocorridas no atendimento social e educacional, em instituições prestadoras de serviço a crianças de zero a seis anos de idade, é tema atual e desafiador para a instauração de um trabalho de qualidade social junto às crianças e famílias usuárias de creches e pré-escolas.

Sabemos que os fatos ocorridos na primeira idade repercutem na adolescência ou na vida adulta do indivíduo. Daí a importância de haver maiores cuidados nesta faixa de idade. Uma criança que sofre maus tratos tende a apresentar problemas de natureza psicológica, capaz de comprometer sua vida adulta. Quanto antes for verificada tal situação, com adequado tratamento, maior a chance de recuperação e garantia de vida adulta sadia.

Assim, é fundamental que os cuidados básicos com a criança e a educação sejam desenvolvidos conjuntamente. Conforme aponta Costa “O que caracteriza a função atual da Educação Infantil é a verdadeira integração entre educação e assistência, pois, o ato de educar a criança está inegavelmente integrado ao ato de cuidá-la”.

Assim compreenderemos que o serviço social na creche deve estar pautado em diretrizes de fundamental importância para a garantia de um trabalho de caráter não exclusivamente educativo e nem prioritariamente assistencial, mas sócio-educativo.
Conforme o artigo de Almeida “a educação e a assistência caminham em conjunto na formulação de novos valores e no processo de luta em torno de uma nova sociedade. Assim, a dimensão estratégica da educação no “processo de transformação social”.
Fica o desafio, unir a educação com as políticas sociais, pelo objetivo de alcançar positivas transformações sociais.

Justificativa
Conhecer as famílias para as quais dirige-se a prática profissional é muito importante, bem como é imprescindível compreender como se dá a inserção da mulher no mercado de trabalho e suas repercussões no cotidiano familiar. De forma prioritária, é necessária a mobilização de recursos de políticas públicas que assegurem a proteção social, conforme preconizado pela lei.
Compreendendo a função social que a educação infantil deve ter, o trabalho será desenvolvido junto às famílias, pela promoção do desenvolvimento das crianças, através de segmentos tratados pela Política de Assistência Social com ações integradas, de caráter preventivo e promocional.
Assim, o serviço social na creche se voltará ao acolhimento das famílias, reconhecendo-a como eixo central de acordo com o que preconiza o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária, e as demais legislações voltadas aos direitos da criança.
As situações de vulnerabilidade, pobreza, desigualdade social das famílias refletem diretamente na criança, comprometendo seu desenvolvimento, o que justifica a necessidade de incluir a família em todo o processo de trabalho da creche.
Conscientizando-as sobre o papel social da creche, será dado um passo importante  para que encontrem efetivas condições para prover sua autonomia, e a possibilidade da elevação do nível de qualidade de vida, aspectos necessários à construção da cidadania que deve se iniciar na infância e na estruturação da família.
Conforme Vitoria e Rossetti-Ferreira,1993 explicitam no artigo Processos de Adaptação na Creche, não basta um atendimento que garanta apenas assistência. “Espera-se hoje que essa instituição seja capaz de desenvolver um trabalho educativo junto às crianças e de compartilhá-lo com a família”.

Objetivos Gerais
Acolher satisfatoriamente as famílias das crianças atendidas na creche, através de ações que visam o fortalecimento e empoderamento de cada membro, com enfoque para questões da mulher atual, nas diversas faces, mãe, trabalhadora, chefe de família... Possibilitando que os responsáveis participem ativamente da educação
das crianças.

Público Alvo
Famílias das crianças atendidas em sistema de creche no Lar Escola “Monteiro Lobato”

Metodologia
Atividades de Acolhimento e Empoderamento das Famílias

• Oficinas Sócio-Educativas
• Oficinas Terapêuticas / de Lazer/ Recreação
• Oficinas de Artes e Artesanato
• Palestras
• Auxílio Profissional
• Atendimentos individuais
• Acompanhamentos/ encaminhamentos;
• Entrevista para Anamnese para levantamento de informações gerais sobre a criança e a família;
• Trocas de informações globais sobre a criança membros da família, visando a promoção profissional, saúde física e emocional, etc.;
• Visitas Domiciliares/ Recursos da Rede Sócio-Assistencial e Rede local

Serviço Social – Trabalho em equipe multidisciplinar
Instrumentos do Serviço Social

Bibliografia

ALMEIDA, Ney Luiz Teixeira. Serviço Social e política Educacional: Um breve balanço dos avanços e desafios desta relação. Disponível em: www.cress.mg.org.br

BRASIL. Constituição Federal, de 05.10.88. Atualizada com as Emendas Constitucionais Promulgadas. São Paulo, Saraviva, 2004.

COSTA, Selma Frossard. A política de Assistência Social no contexto da educação infantil: possibilidades e desafios para um trabalho sócio-educativo. Disponível em: www.ssrevista.uol.br

SZYMANSKI, Heloísa. Viver em família como experiência de cuidado mútuo: desafios de um mundo em mudança. In: Família, nº71. Revista Serviço Social & Sociedade. São Paulo, Cortez, p.23, 2002.

VITORIA, Telma; ROSSETTI-FERREIRA, Maria Clotilde. Processos de Adaptação na creche. Ced. Pesquisa. São Paulo, 1993


Patrícia do Val Pellisson Mansette
Assistente Social

.